Sequestro de carbono na pecuária

Sequestro de carbono na pecuária: como a produção brasileira pode ser parte da solução climática

À medida que a taxa de aquecimento global continua a aumentar, cresce a pressão para que todos os setores da economia encontrem maneiras eficientes de frear esse processo. Nesse contexto, as vastas pastagens do Brasil revelam um potencial ainda pouco explorado não apenas para a produção de alimentos, mas também para a ação climática. Diante disso, o sequestro de carbono na pecuária passou a ocupar espaço central nas discussões sobre sustentabilidade no campo. Isso porque o setor produtivo, especialmente o brasileiro, possui condições reais de capturar CO₂ da atmosfera e armazená-lo no solo e na vegetação, contribuindo diretamente para as soluções climáticas globais.

Principais pontos abordados neste artigo
  • O que é sequestro de carbono e por que ele importa
  • Como as pastagens brasileiras podem atuar como mitigadoras de carbono.
  • Estudos que comprovam o potencial da pecuária brasileira

O que é sequestro de carbono

O sequestro de carbono corresponde ao processo de remover CO₂ da atmosfera e armazená-lo em reservatórios naturais, como o solo, a vegetação e a matéria orgânica. Dessa forma, reduzimos a quantidade de gases de efeito estufa que contribuem para o aquecimento global.

Na pecuária, esse sequestro ocorre principalmente no solo das pastagens, que funcionam como grandes estoques de carbono.

Por que o sequestro de carbono é importante

Nos últimos séculos, a concentração de CO₂ na atmosfera aumentou de forma acelerada. Por isso, estratégias capazes de remover carbono tornaram-se essenciais para estabilizar o clima. Nesse cenário, o Brasil exerce um papel estratégico.

O país é uma potência produtora de carne bovina, a segunda maior do mundo. De acordo com o documentário World Without Cows (Planet of Plenty), o gado pasteja em 160 milhões de hectares de terra. Isso é vasto, e é nessas pastagens que a maior parte da carne do país nasce e é criada. Essas áreas representam um imenso potencial de mitigação, principalmente quando recebem manejo adequado.

Além disso, tecnologias como Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e sistemas regenerativos mostram que é possível sequestrar mais carbono do que se emite, tornando a pecuária parte da solução, e não do problema.

Sequestro de carbono em pastagens

Ao contrário do que muitos imaginam, as pastagens apresentam uma resiliência notável frente a eventos climáticos, muitas vezes superior à das florestas. Isso se deve ao fato de que a maior parte do carbono acumulado pelas gramíneas está armazenada no subsolo, concentrada no solo e em suas raízes profundas, e não na parte aérea das plantas. Assim, mesmo após queimadas ou períodos prolongados de seca, esse carbono permanece protegido no solo, preservando o estoque já formado. Além disso, o crescimento contínuo das forrageiras renova e amplia esse armazenamento ano após ano, reforçando o papel das pastagens como importantes mitigadoras de carbono.

Para ampliar ainda mais esse potencial, algumas práticas fazem diferença:

  • Recuperar pastagens degradadas
  • Adotar manejo rotacionado
  • Diversificar o uso da terra com sistemas integrados

Sequestro de carbono na pecuária: o que mostram os principais estudos

Nos últimos anos, diferentes instituições têm analisado o papel da pecuária brasileira na mitigação das mudanças climáticas. Entre esses trabalhos, o estudo Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil (2025–2050), conduzido pela FGVAgro em parceria com a ABIEC, é um dos mais completos e detalhados sobre o tema.

O relatório parte de uma pergunta central: como a pecuária brasileira pode reduzir suas emissões líquidas sem comprometer a produção? Para responder a isso, os pesquisadores projetaram diversos cenários, considerando produtividade, manejo, tecnologia e mudanças na ocupação das pastagens.

Os resultados mostram que a recuperação de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas é uma estratégia decisiva para aumentar o estoque de carbono no solo. Além disso, a expansão de sistemas integrados, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), potencializa ainda mais o sequestro de carbono, permitindo que pastagens manejadas com eficiência alcancem remoções estimadas em cerca de 298 milhões de toneladas de CO₂ equivalente até 2050. Essa transição evidencia que a intensificação sustentável, quando aliada ao manejo adequado, transforma a pecuária em uma poderosa ferramenta de mitigação climática, capaz de equilibrar suas emissões entéricas com o sequestro de carbono em larga escala.

Outro ponto-chave é a eficiência no uso da terra. O mesmo estudo projeta que:

  • O Brasil pode reduzir em 35% a área total de pastagens até 2050, sem diminuir a produção.
  • A lotação pode subir de 1,03 para até 1,72 cabeça/ha.
  • O peso de carcaça pode atingir 277 kg nos sistemas mais tecnificados.

Isso significa que a pecuária pode crescer, atender à demanda global e continuar competitiva, tudo isso sem abrir novas áreas e contribuindo para a conservação ambiental.

A pecuária brasileira no caminho da descarbonização

O sequestro de carbono na pecuária já é uma realidade para pecuaristas que adotam manejo eficiente e tecnologias. Dessa forma, o Brasil tem a oportunidade de liderar a agenda climática global, mostrando que é possível produzir proteína animal em grande escala enquanto se restaura o solo, aumenta o carbono armazenado e melhora o uso da terra.

Com conhecimento técnico, sistemas integrados e gestão eficiente, a pecuária brasileira se transforma em uma aliada crucial na construção de um futuro mais sustentável.

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